QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA
Ontem à noite, após a oficina, por volta de 23: 50h, lá estava eu a cantarolar em plena Avenida Paulista. Quem me avistava de longe tinha a nítida impressão de que era louco, pois eu estava cantando com uma felicidade sem medo de ser feliz. Acho que minha alegria vinha dos elogios que recebi na oficina após apresentar um monólogo de Jean Tardie, um dramaturgo Francês do Teatro do Absurdo, “ O Mau Espectador”, e da música que é muito bonita, “Samurai” do adorável Djavan.
Embarquei no itinerário rumo a toca. Como eu estava saltitante, resolvi ir sentar nas últimas cadeiras que estavam disponíveis. Enfim, acomodado, com letra da música na mão, cantando e agarrado na viaje que estava a rondar os pensamentos.
De repente uma garota, aparentava ter uns 13 anos, uma criança, veio em minha direção e pediu para se sentar ao meu lado. A princípio achei que ela estava querendo me vender alguma coisa, a melodia da música me evolveu tanto, que logo fiz um gesto de recusa. Só depois que ela me questionou pela segunda vez, percebi que queria sentar-se ao meu lado. Comecei achar tudo muito estranho, aliás, todas as cadeiras estavam disponíveis, e porque ela queria sentar-se justamente ao meu lado? Questionei-me.
Depois de alguns minutos, com o zumbir do vento que defrontava na janela, perguntei-a: Você gosta de cantar? Ela me disse que sim, foi quando saquei que tinha um ar de solidão. Comecei interrogá-la, sondando por qual motivo ficava pelas ruas a perambular. Em nenhum momento senti resistência, a menina até colaborou com a investigação sutíl.
De fato, ela me disse que até gosta de ficar nas ruas, que faz bastantes amizades e que todo mundo na Av. Paulista a conhecia:
- Todo mundo lá me adora!
Perguntei se gostava de estudar e a manifestação foi positiva:
- Estudo de manhã e a tarde ajudo a minha família, tenho doze irmãos e é preciso dar duro.
Fiquei matutando por alguns instantes. Como pode uma criança cuidar praticamente da família e ainda por cima, dessa forma. Prossegui perguntando o seu nome e disse que se chamava Jôse.
A mesma informou que os seus pais não a obriga sair para mendigar, que se preocupam quando chega tarde em casa. Afirmou que nunca usou drogas e que em média consegue de R$ 40 a 50 pratas por dia.
Uma pergunta curiosa me veio na seqüência:
- E alguém da sua família trabalha? Ela me respondeu:
- Não, ninguém da minha família trabalha, eles já cansaram de procurar, e às vezes tenho vontade de sair para brincar e não tenho tempo.
Fiquei sem ter o que falar, entalado. Na mesma hora, essa onda de corrupção transpareceu como um filme mexicano diante de mim.
Onde está a verba que deveria assessorar as famílias carentes?
Cá entre nós, nas festas organizadas dos imundos desumanos, será que tiveram garotas à vontade, charutos, comidas, bebidas, queima de dólores, etc e tal... toda essa podridão em massa? Ou será que faltou? Assim como faltou para Jôse o carinho, a comodidade, calor dos pais, a educação, o sonho de poder ser livre para brincar e sonhar com os seus ideais. Tudo isso desapareceu, como some do Brasil esses corruptos só na hora que é conveniente. Quando vamos notar, o inimigo foi a Paris tirar umas duas semaninhas de férias, aproveitou foi assistir Marília Pêra em Mademoiselle Chanel e por um acaso apareceu de relance no Amaury Jr. Essa é a nossa realidade. Infelizmente tartaruga é o povo. Temos que ter o casco duro para montarem nas nossas costas, detalhe, sem ter o que fazer. Mas nos abalemos, no próximo ano, vem as eleições.
Voltando a Jôse. Procurei finalizar meu diálogo de forma motivadora. Disse que quem canta, seus males espanta. E antes de saltar rumo ao destino, cantei essa linda canção:
Djavan - Samurai
Ai... Quanto querer Cabe em meu coração Ai... Me faz sofrer Faz que me mata E se não mata fere... Vai... Sem me dizer Na casa da paixão Sai... Quando bem quer Traz uma praga E me afaga a pele Crescei, luar Pra iluminar as trevas Fundas da paixão Eu quis lutar Contra o poder do amor Cai nos pés do vencedor Para ser o serviçal De um samurai Mas eu tô tão feliz! Dizem que o amor Atrai...
Ela adorou! Foi então que me despedi deixando um olhar de esperança aquela menina.
"Para muitas pessoas é mais importante uma conversa do que o gesto de tirar uma moeda do bolso e ceder".
Escrito por BITENCURT às 14h41
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