
Paulo Autran e Cássio Scapin na peça "Visitando o Sr. Green"
"Teatro não é uma masturbação para atores gozarem", diz Paulo Autran
Nascido no Rio e formado pela Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) em 1945, Paulo Autran estreou profissionalmente em 1949. Integrou o elenco de filmes como "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha, e está em cartaz com a peça "Adivinhe Quem Vem Para Rezar".
Com auditório lotado por estudantes e amantes de teatro, a sabatina foi uma aula de interpretação. Embora simples, sua visão sobre a profissão que segue há 60 anos revela uma profunda crítica ao experimentalismo. “Teatro é uma idéia transmitida por um ator ao público. Algumas peças experimentalistas são feitas para chatear o espectador”.
Sobre o atual badalado diretor Zé Celso Martinês Correa, Autran frisou que ele foi a grande revelação teatral no Brasil. “Depois, ficou muito ruim e, agora, o que ele faz não me interessa. Não me interessa entrar no teatro para ver dois rapazes se masturbando. Parece que masturbação atrai público!”
Essa vaidade explícita nas peças de Zé Celso talvez seja o que mais incomoda Paulo Autran. “O ator tem que canalizar a vaidade para tentar ser um ator melhor”, dá a dica. E parece que isso ele fez com brilhantismo: “Nunca na minha vida recebi uma vaia. Não sei o que é e me orgulho muito disso”.
Aos jovens espectadores aspirantes a atores, Autran deu duas dicas de treino valiosas: “O gênero boulevard obriga o ator a um comedimento milimetrado. É um gênero em extinção. A tendência hoje é o oposto” e “dar ao aluno uma frase padrão e fazer com que ele diga a mesma frase com vários sentidos diferentes”. Segundo ele, as técnicas fazem com que o iniciante leia o subtexto e entenda o que o personagem está pensando na hora da fala.
Crítica
“No Brasil, a crítica nunca teve a importância que tem em Nova York. Lá, se a crítica era ruim na estréia, a peça ia mal”. Quando percebeu que a crítica brasileira não tinha este poder, Autran disse nunca mais ter se preocupado com elas. Até porque “antes, a crítica era paternalista. Hoje, é incapaz de criticar uma inflexão verdadeira. Eles criticam a interpretação, mas não percebem o ‘tom’”, provocou.
Antigos episódios vieram à tona. A mais polêmica delas, sua indisposição com o crítico Paulo Francis, foi narrada com maestria pelo ator. Segundo ele, Francis escrevia resenhas de peças descrevendo a atuação de Tônia Carreiro como “muito sexy” por diversas vezes, enquanto outros críticos a elogiavam como boa atriz.
A troca de farpas resultou em troca de cuspes e socos entre os dois. Anos após o episódio e com a morte do crítico, Autran ainda afirma que os atores são vaidosos, mas os críticos são muito mais. “A vaidade de Paulo Francis era quase tão grande quanto o talento de Guimarães Rosa. Como eu ia perdoá-lo?”
Políticas públicas
Paulo Autran falou ainda de políticas públicas e criticou o ministro da cultura, Gilberto Gil. “Antes, para produzir uma peça, pedíamos empréstimo ao banco e, com o dinheiro da bilheteria, pagávamos as dívidas e ainda sobrava”. Hoje, segundo ele, com as leis de incentivo, tudo ficou mais caro. “O efeito colateral dessas leis é que elas aumentam o custo do espetáculo”. E completou “e o Gil deve estar rico”.
Mesmo com os incentivos e ainda que o ingresso do teatro seja barato no Brasil, quando comparado a outros países desenvolvidos, o preço aqui é inacessível à maior parte da população. E Autran revelou uma angústia: “o povo economiza pra ir a show de rock, mas não para ir ao teatro”.
Futuro
Para tranqüilizar os fãs, o venerado ator garante que só pára de trabalhar quando não puder atuar e já planeja sua nova empreitada, a peça “O Avarento”, do autor francês Molière. Pelo menos por enquanto, seus planos não incluem a telinha. “Fazer novela é intelectualmente medíocre. Você não aperfeiçoa o trabalho e tem que dar Ibope”, disse o ator que já esteve em três novelas.
Sobre a possibilidade de dividir o palco com Fernanda Montenegro, Autran ri e conta: “quando a convidei para fazer uma peça comigo, ela disse que eu loto teatro e ela lota teatro. Se a gente fizesse uma peça juntos, ganharíamos só a metade!”. Mas, parece que ela mudou de idéia: “Ela disse que se a gente achar uma peça com dois velhos, a gente faz”, confessou Autran.